Num sábado de outono, a noite, escutei alguns músicos – artistas, na verdade – cantarem uma música, a qual já conhecia, mas não tinha me detido na sua letra ainda. Em tempo!
Os versos aos que me refiro são os seguintes:
“É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente”
(Tocando em Frente)
Quando escutei a música, então, em especial os últimos versos, pensei no processo psicoterapêutico e o que nos leva a ele, o que nos sustenta nele e o que nos faz sair dele – ou cair para fora.
O desejo pela vida e pelo caminho a percorrermos nela parece incessante, deslumbrante, promissor e em geral, difícil justamente por todas essas perspectivas, as quais devem se apresentar em algum momento desse percurso.
Entretanto, penso se, na verdade, a vida e todo seu percurso não diga respeito a justamente somente compreender que se trata do caminho e do ritmo com que se caminha por essa estrada – e nada mais, nem menos. Não há potes de ouro no fim, nem recompensa pelo bom comportamento, nem castigo pelas maldades de todos os dias.
Em psicoterapia, parece em alguns momentos, que vamos mediando um pouco disso a que Winnicott chamou de processo de ilusão e desilusão: é preciso acreditar em tudo e em um potencial máximo, para aos poucos, de forma gradual e afetuosa, percebermos que se trata de um caminho. E isso pode ser pouco para alguns, pode ser tudo para outros: cumprir ele é que se torna o desafio.
Estou lendo Crime e Castigo, de Dostoiévki, um livro que tornou-se um desafio particular, pois ele parece intenso demais, profundo demais, detalhado demais.
Uma frase me chamou a atenção hoje:
“Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro.”
Freud estudou e analisou a obra desse autor, e em um texto de 1923 fala sobre a noção de culpa e crime e como isso dinamicamente se articula nas nossas instâncias pisquicas. Notadamente, o livro trás a tona essa questão do crime e da culpa advinda dessa ação. Mas, o que me chama atenção, no momento, não é exatamente isso, mas sim a perspectiva de que mentir uma mentira sua seria mais autêntico que utilizar a verdade de outrem.
Construir verdades e dissemina-las, de maneira aleatória, parece ser uma nova especialidade da nossa sociedade – e não é de hoje! E então, a facilidade com que tomamos essas verdades para nós como se desde sempre elas estivessem estado ali. É fácil de observar isso, basta ter olhos para ver e ouvidos para escutar. De maneira que, se seguirmos pensando assim – e você pode ficar com essa “minha verdade”, se quiser – fica razoavelmente fácil concluirmos que o “eu” é cada vez mais “eles”, ou nós – e isso não em um sentido de coletividade profícua.
Em um das vastas conversações dos personagens, mentir, um ato moralmente desonrado, parece tomar as vezes de mocinho uma vez que passa a ser visto como o que de mais autêntico pode ser produzido por um sujeito – e ainda que não seja de vangloriar-se, na pior das hipóteses nos conduz a condição de humanos – seja lá o que isso queira dizer, em um sentido mais profundo, sociológico ou filosófico. Mentir, na nossa discussão aqui e a partir do contexto do livro, seria reinventar algo dado por uma realidade, e daí, algo tão próprio.
Pode ser que você esteja pensando no impropério dessa ideia, mas vamos pensar juntos: quantas mentiras você julga contar no dia? Nenhuma? Pense melhor!
Não importa a intenção, não importa o quão bom queiramos ser, mentir é humano e nos conduz o tempo todo a esse estado de humanidade.
Já falamos anteriormente sobre a questão da Obesidade Infantil e o quanto essa questão demora a ser abordada, seja porque é negligenciada, seja porque é negada. Entretanto, é preocupante esse fenômeno porque os índices estão altos – e crescem – na população infantil e jovem. O fato é que: a obesidade é uma doença e deve ser tratada.
Mas, qual é a causa da obesidade? Qual é a sua raiz?
O que origina pontualmente a Obesidade não é claro para os cientistas, pois as variáveis envolvidas são inúmeras, ou seja, as causas são genéticas, orgânicas, metabólicas, nutricionais, emocionais e sociais, e isso tudo pode ser concomitantemente. Sendo assim, o fenômeno é complexo e com isso, em geral, muitos dos fatores citados estão articulados entre si e o tratamento exigira mais de um profissional envolvido.
Um dos problemas da Obesidade Infantil são as consequências a longo prazo, ou seja, na adultez, como referido no artigo anterior, período no qual problemas sérios como doenças coronarianas podem levar o sujeito a morte. Entretanto, nesse momento abordaremos as consequências a curto prazo, as quais também são importantes e graves, pois problemas de ordem física – como transtornos endócrinos ou relativos a pressão arterial, aparecem muito precocemente fragilizando um organismo em constituição – e de ordem emocional – baixa-estima, dificuldades nas relações interpessoais, depressão, dentre outros – podem ser percebidos tão logo o quadro de Obesidade está instalado e muito diferentemente do tom pseudo carinhoso do “fofinho”, estamos falando de um problema sério e com consequências igualmente importantes para o sujeito.
No tocante ao tratamento, como já referido, possivelmente seja necessário um tratamento multidisciplinar, contudo ressalta-se que o tratamento emocional é fundamental nesse processo, pois questões emocionais estão profundamente vinculadas ao quadro da Obesidade Infantil, pois o excesso de peso pode, inclusive, estar a serviço de um outro quadro como a depressão, por exemplo, ou ainda, encobrir como um mecanismo protetivo uma situação de violência.
Criança com obesidade não é “fofa”, é um sujeito que necessita de atenção e auxílio.
OBS.: Hoje começa uma campanha do governo federal a respeito do combate a Obesidade Infantil.
Em janeiro desse ano (2013) saiu uma reportagem no Jornal Zero Hora com um especialista em Obesidade Infantil, na qual o assunto é reportado como algo importante de receber atenção e ressalta-se as implicações que o excesso de peso tem e terá sobre a vida das crianças na sua vida adulta.
Dos transtornos alimentares – anorexia, bulimia, compulsão alimentar e obesidade, por exemplo – o último é o que menos recebe atenção e o que mais tardiamente é tratado – e com isso, subentende-se que é o mais tardiamente “visto” pelos cuidadores e reconhecido como um problema real. Entretanto, para a criança o seu excesso de peso já se torna um fardo a ser carregado muito antes dos pais e cuidadores se darem por conta disso, principalmente quando em idade escolar, período no qual o peso – em excesso – não passará desapercebido para seus coleguinhas, o que pode dar margem para um outro problema: o bullying ( http://conversadegentemiuda.wordpress.com/2012/09/20/bullying-vamos-continuar-conversando-sobre-o-assunto/ ).
O que pode ser tratado como algo comum ou que não implica sofrimento – psíquico e físico – e receber o nome de “fofinho”, pode na verdade estar escondendo ou negando um problema real e de implicações futuras muito sérias – e não estamos falando somente de implicados da ordem psíquica, inclui-se também questões da ordem social e física.
Em uma divulgação da Revista Super Interessante (Fev.2013) a capa trás como reportagem central o tema do INCONSCIENTE. Essa capa me chama a atenção, em especial, devido a linha teórica com que trabalho, a psicanálise, e esse tema – conceito – ser um dos principais pilares da teoria psicanalítica.
A Psicanálise, alvo de inúmeras críticas da dita ciência, trabalhou desde o seu princípio com a ideia de Inconsciente. A reportagem da revista, certamente para a surpresa de muitos, reafirma a teoria de Sigmund Freud sobre o Inconsciente e toda a sua influência sobre o nosso comportamento e forma de relacionarmos uns com os outros. As neurociências, através de exames sofisticados e pesquisas aguçadas, têm podido demonstrar isso.
Vale a pena passar os olhos pela reportagem e entender mais um pouquinho, de maneira simples, o que se entende como Inconsciente e como ele age em nós. Para quem quer aguçar a leitura e aprofundar, segue duas indicações:
Título: Da Neurologia à Psicanálise – desenhos neurológicos e diagramas da mente por Sigmund Freud. Autores: Lynn Gamwell e Mark Solms (2008, Editora Iluminuras)
Título do texto: Projeto para uma psicologia científica ( Obras completas, Vol.I, 1886-1899). Autor: Sigmund Freud. (Editora Imago).
Bom mergulho!
Quer mais uma dica de livro?
Pois aqui vai! O livro “Freud” de Corinne Maier e Anne Simon na verdade não é bem um livro, mais parece uma revista e em quadrinhos!
Esse formato divertido conta a história de Sigmund Freud e da Psicanálise através de ilustrações, as quais tem o estilo de uma história em quadrinhos.
A teoria é abordada de maneira divertida e as autoras apresentam diversos dos casos clássicos, como Anna O. e O Homem dos Ratos, por exemplo, além do Complexo de Édipo e outros pontos importantes da teoria e também da técnica psicanalítica que o pai da psicanálise apresentou para o mundo.
Confira, divirta-se e, de quebra, tenha a oportunidade de revisar ou aprender de maneira bem humorada uma teoria – e uma técnica – séria e consistente!
(OBS.: A imagem foi desfocada propositalmente.)
A última edição do Entre Linhas (Out. Nov.Dez.2012), material de autoria do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul (CRP-RS), trás na sessão Dica Cultural, escrita pelo colega Lucio Fernando Garcia, a indicação do livro “O Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”. Compartilhando de uma impressão similar à do colega em relação ao livro e também por entender que se trata de uma leitura muito interessante para nós psicólogos – e agentes da saúde mental , em geral – decidi dedicar um momento para conversar sobre o material.
O livro, cuja organização é de Alfredo Jerusalinsky e Sílvia Fendrik, e cuja leitura já realizei, compila uma série de textos interessantes, consistentes e questionadores sobre questões referentes as psicopatologias atuais – e nem tão atuais como usualmente se pensa –, suas classificações e o uso dos fármacos como uma alternativa fundamental e preponderante.
Dos textos que compõem o livro, saliento o capitulo do próprio organizador, Jerusalinsky, “Gotinhas e comprimidos para crianças sem história. Uma psicopatologia pós-moderna para a infância” e o de Angela Vocaro, “ O efeito bumerangue da classificação psicopatológica da infância”. Vocaro faz uma construção interessantíssima de como o diagnóstico pode se tornar a própria identidade da criança, e essa, por sua vez, deixar de ser um sujeito com outras facetas, assumindo o transtorno como o seu “eu”, o qual passa a ser apresentado publicamente/socialmente. A autora indica olharmos para a prática clínica com a delicadeza que essa prática merece, compreendendo profundamente que não se trata de uma prática qualquer, nem de algo que poderá ser cerceado através de prescrições pontuais e positivistas, muito antes pelo contrário, trata-se de um espaço de acolhimento de ocorrências clínicas, com significações específicas, e com isso, impactos particulares e imensuráveis.
Já Jerusalinsky apresenta-nos questões pontuais referentes ao TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) – diagnóstico tão comum hoje em dia, quanto banana em feira – e ao Autismo. Além disso, discute a necessidade pela busca dessas denominações/nomenclaturas – no sentido de aplacar a angústia do não saber de pais e pacientes, e por que não dizer, dos próprios profissionais – e o que entendo como o “ouro” da clínica, que vem a ser a possibilidade de escuta da trajetória de cada sujeito, incluindo seus dessabores e sofrimentos, para assim “decifrar” o que é dito, o que é visto e o que é vivido.
Com certeza é uma leitura que vai fazer você pensar. Super indicação! Parabéns ao CRP.
A Revista Super Interessante (Dezembro de 2012) novamente aparece com uma capa interessante para discutirmos aqui: “As mentiras que os pais contam para os filhos” e são muitas! A maioria delas vocês como filho já ouviu, e como pai ou mãe, vocês já contou. Seguem algumas delas: amo todos meus filhos da mesma maneira, você deve amar seu irmão, aqui em casa podemos conversar sobre qualquer assunto, estudar é mais importante do que os amigos, seu desenho ficou lindo… e por aí vai. Como disse, se você não ouviu, já aplicou uma dessas!
Uma das então mentiras contadas pelos pais que me chama a atenção é a referida na página 18, “Engole o choro. No futuro, vai me agradecer.”, a famosa chinelada e castigos físicos. Em um artigo anterior do blog, cujo título era Terapia das Havaianas – quando as palavras falham, as ações surgem (http://conversadegentemiuda.wordpress.com/2011/07/22/terapia-das-havaianas-quando-as-palavras-falham-as-acoes-surgem-2/ ) discuti sobre o tema porque, em geral, é algo que cria muita polêmica, ainda mais em uma cultura que ainda incentiva e entende que a punição física é uma alternativa adequada para resolução de problemas – e não falo somente das crianças, refiro-me inclusive a situações de violência contra mulher, por exemplo.
Quando a regra ou a lei não está internalizada, ou seja, a normativa não faz parte do sujeito, na ausência do estímulo concreto – os pais, por exemplo – a criança tende a transgredir e agir como deseja. Isso, futuramente, será visível no comportamento do adulto que, onde não localiza uma referência concreta da lei – um policial, um controlador de velocidade (pardal), etc. – não cumprirá com a regra. E aí? Quem vai dar as chineladas nesse adulto?
Outra mentira interessante é “Em casa falamos sobre tudo.” (pág. 12) e essa, definitivamente sabemos que é mentira. Talvez, menos mentira hoje do que já foi, mas ainda sim, uma mentirinha das boas. Há um tempo tive a oportunidade de conversar com adolescentes do ensino médio, cujo repertório teórico sobre a temática da sexualidade e sexo em geral parecia de uma infinita sabedoria – e prática! Entretanto, quando a conversa ficou realmente mais casual e os deixou a vontade, surge então, a verdade: eles não sabem do que estão falando e o pior, não sabem a quem perguntar! Teoricamente, essas questões – ainda mais nesse período – deveriam ser acolhidas em casa, não é? Não, não é. Ao que tudo indica, e na reportagem referida isso é ratificado, os adolescentes não tem essa abertura toda para conversar em casa, ainda mais quando o “caldo entorna” e a questão pode ser: “Será que estou grávida? Como eu poderia evitar isso?”. É fato, igualmente e também citado na reportagem que, os adolescente querem e demarcam bem esse território da sexualidade como algo de cunho privado, deixando, por vezes, pouca margem para os pais avançarem sobre o assunto. Então, aí, mais uma vez os pais devem retomar as suas memórias e lançar mão de estratégias não invasivas, e de acolhimento – quando o filho entender que precisa desse espaço.
Mentiras a parte, pais, desde que o mundo é mundo elas existem e existem por uma razão – cultural, social, evolucionista, enfim! – a questão é poder pensar sobre elas e como driblar essas mentirinhas que não ajudam nem facilitam de fato a vida do rebento. Nem tudo deve ser dito aos filhos – crianças ou adolescentes – porque nem tudo é da conta deles, mas o que for, pode ser mais verossímil, não pode?
Em uma parceria muito especial com a colega e amiga Maria Luiza Pacheco, publicamos mais um artigo cujo enfoque é a questão do abuso sexual e suas repercussões na infância. Segue o resumo do material e seu respectivo link (Revista de Psicologia Imed).
(http://seer.imed.edu.br/index.php/revistapsico/article/view/229/193)
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo discutir os possíveis impactos do abuso sexual intrafamiliar no psiquismo infantil e, para tanto, foi utilizada como metodologia a revisão de bibliografia. Observa-se que uma violência dessa natureza desorganiza todo o funcionamento familiar, pois denuncia uma falha na organização psicológica e estrutural da família, tendo importantes repercussões no psiquismo infantil. A criança fica impossibilitada de elaborar psiquicamente as excitações despertadas pelo abuso sexual, configurando um trauma que será manifestado através de inúmeros sintomas, os quais são uma ameaça no funcionamento do psiquismo na medida em que defesas psicológicas não conseguem sustentar e nem reprimir o afluxo de excitação proveniente do ato abusivo. Considerando o material levantando, afirma-se que embora os efeitos de tal vivência possam aparecer de diversas formas, com diferentes graus de severidade e em qualquer idade da vítima, o abuso sexual infantil pode ser entendido como um propulsor para o surgimento de psicopatologias graves.
Palavras-chaves: Abuso Sexual Intrafamiliar, Funcionamento Psíquico, Psicanálise.