Estou lendo Crime e Castigo, de Dostoiévki, um livro que tornou-se um desafio particular, pois ele parece intenso demais, profundo demais, detalhado demais.
Uma frase me chamou a atenção hoje:
“Mentir a seu modo é quase melhor do que falar a verdade à moda alheia; no primeiro caso és um ser humano, no segundo, não passas de um pássaro.”
Freud estudou e analisou a obra desse autor, e em um texto de 1923 fala sobre a noção de culpa e crime e como isso dinamicamente se articula nas nossas instâncias pisquicas. Notadamente, o livro trás a tona essa questão do crime e da culpa advinda dessa ação. Mas, o que me chama atenção, no momento, não é exatamente isso, mas sim a perspectiva de que mentir uma mentira sua seria mais autêntico que utilizar a verdade de outrem.
Construir verdades e dissemina-las, de maneira aleatória, parece ser uma nova especialidade da nossa sociedade – e não é de hoje! E então, a facilidade com que tomamos essas verdades para nós como se desde sempre elas estivessem estado ali. É fácil de observar isso, basta ter olhos para ver e ouvidos para escutar. De maneira que, se seguirmos pensando assim – e você pode ficar com essa “minha verdade”, se quiser – fica razoavelmente fácil concluirmos que o “eu” é cada vez mais “eles”, ou nós – e isso não em um sentido de coletividade profícua.
Em um das vastas conversações dos personagens, mentir, um ato moralmente desonrado, parece tomar as vezes de mocinho uma vez que passa a ser visto como o que de mais autêntico pode ser produzido por um sujeito – e ainda que não seja de vangloriar-se, na pior das hipóteses nos conduz a condição de humanos – seja lá o que isso queira dizer, em um sentido mais profundo, sociológico ou filosófico. Mentir, na nossa discussão aqui e a partir do contexto do livro, seria reinventar algo dado por uma realidade, e daí, algo tão próprio.
Pode ser que você esteja pensando no impropério dessa ideia, mas vamos pensar juntos: quantas mentiras você julga contar no dia? Nenhuma? Pense melhor!
Não importa a intenção, não importa o quão bom queiramos ser, mentir é humano e nos conduz o tempo todo a esse estado de humanidade.