Há alguns dias atrás, voltei a escutar uma música cuja letra continha as seguintes frases:
“Números, números, números
O que é, o que são
O que dizem sobre você
Números, números, números
O que é, o que são
O que dizem sobre você
Essa não é a sua vida
Essa não é a sua história
Essa não é a sua vida
Essa não é a sua história” (Papas na Língua).
Essa música acabou fazendo para mim uma associação com um tema que venho pensando e discutindo, o diagnóstico infantil (e todos os processos diagnósticos) na área da psicologia e psicanálise. Em certos momentos, ou a partir de certas demandas, verifica-se o que poderíamos chamar de um verdadeiro fetiche pela classificação diagnóstica, como se ela, por si só pudesse “salvar” ou “subtrair” o sofrimento a que o sujeito em questão está enlaçado. Curiosamente, o que poucos se questionam – ou querem se questionar – é o que esse mesmo sofrimento pode dizer sobre a história desse sujeito e o que, por sua vez, pode significar.
A princípio, parece consenso, que pessoa alguma opta ou quer viver em sofrimento. A princípio, isso poderia ser entendido como uma verdade absoluta. Em certa medida – quantitativa ou qualitativa, como medir? – sofrimento frequente, intenso e contínuo não indica condições de saúde e bem-estar. Contudo, execrar esse processo numa tentativa de pura negação dessa vivência pode trazer – e certamente trará – outros tipos de consequências.
Dessa forma, quando pensamos em atribuir um diagnóstico – e vejam bem, não afirmo em momento algum que o diagnóstico seja desnecessário ou uma prática inadequada, pelo contrário – antes dele, e para chegar até ele quando for o caso, é necessário pensar na história desse sujeito e como ela se construiu, para além da quantidade de vezes que um sintoma aparece ou dos miligramas de medicação prescrita, buscando perceber a dinâmica por trás desses números e encontrando um sentido próprio e único. Essa sim é verdadeira a história de cada um: suas vivências, suas dores, suas satisfações, suas limitações e inclui-se nisso tudo, os sofrimentos de cada um como uma parte que integra, não que se nega.