Há psiquismo antes do nascimento?
Podemos pensar em registros de memórias, sentimentos ou emoções em embriões ou fetos?
Muitas bibliografias exploram essas questões, dessa forma é interessante deter-se a pensar em, o quanto, de fato, podemos pensar em quando o psiquismo se inaugura – há condições dele estar já presente mesmo antes do nascimento? Há condições fisiológicas para isso? Ou, estamos falando de memórias sensoriais que aquele pequeno corpinho já registra? E se a resposta fosse positiva a essa última questão, segue-se outra: e isso já não seria a base para o psiquismo?
Inquestionavelmente o tema e os estudos sobre a vida intrauterina e seus desdobramentos psíquicos são muito interessantes e oferecem nova luz às teorias, contudo uma questão que fica palpitando quando nos deparamos com os textos que abordam essa temática: as nomeações que os adultos (pais, psicanalista, estudiosos e pesquisadores) fazem para descrever movimentos do feto e, suas intenções, por conseqüência. Embora concorde com os pontos explorados, compreendo também que muitas dessas nomeações são frutos das próprias questões dos observadores – mais especificamente, dos seus próprios filtros psíquicos. Bem entendo que essas nomeações são cruciais para o desenvolvimento infantil e, portanto, fundamental para alicerçar suas bases psíquicas; contudo, não seria muito precoce esse processo quando falamos de fetos e embriões? Amarrando essas observações à dinâmica posterior da vida desses bebês, parece-me que, mesmo que não se nomeasse o que foi observado através de ultrasonografias e derivados, esse caminho psíquico que começou a ser traçado dentro do útero seguiria com força total no sentindo de abrir espaços para se instalar e assim, demonstrar quem se é. Ao mesmo tempo penso que, a palavra aplaca o sofrimento, dando-lhe o devido espaço e possibilitando fluir – como se demonstra nos tratamentos dos pequenos pacientes.
O que parece iluminar essa questão é compreender que quando se fala em psiquismo, percepções de si e do outro, nomeações, fala-se a partir das experiências sensoriais que começam a escavar esse psiquismo imaturo e, aos poucos vão se instalando como memórias longínquas (inconscientes) iniciadas pelo próprio corpo – um ego corporal acima de tudo, como nos disse Freud.
Finalmente, parece-me que uma possibilidade viável para compreender todo esse processo é alcançar o fato que: sendo que os bebês (perinatal) não possuem uma linguagem ainda estabelecida, e portanto, não há um aparelho psíquico que consiga auxiliá-lo na elaboração de seus conflitos, seriam as nomeações oferecidas através de pontuações ou interpretações realizadas pelos psicanalistas – nesse momento da vida em particular – dirigidas na verdade a figura da mãe, a qual absorve essas nomeações (do que antes estava sem nome e pertencia a ordem da angustia, inclusive para ela mesma) e as elabora, aplacando sua angústia e transmitindo uma nova sensação de calmaria e sentido para seu bebê (cedendo a ele temporariamente seu aparelho psíquico – já capacitado pela linguagem, símbolos e sentidos – para que ambos, em uníssono, possam recordar e elaborar) dando prosseguimento a relação mãe-bebê e ao desenvolvimento desse último. Em um texto de J. Wilheim há uma frase que resume tudo o que se pensou disso: “O papel do psicanalista […], é o de nomear estas memórias, colocando a palavra lá onde existe apenas um significado não dito, uma falta de palavra.”
(Texto produzido a partir de Seminário no curso de formação do CEAPIA/2012)